Cientistas revelam possível biomarcador para doença vascular rara

31 de maio de 2021

Karina Ninni | Agência FAPESP – A hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) é uma doença vascular relativamente rara, resultante de um coágulo (trombo) na artéria pulmonar que não desaparece mesmo com uso de medicações anticoagulantes. A obstrução causada pelo trombo acaba sobrecarregando o ventrículo direito do coração. O melhor tratamento conhecido é a cirurgia (tromboendarterectomia pulmonar, ou TEAP), mas nem todos os pacientes são elegíveis. Dos que são e foram submetidos ao procedimento, 35% ainda permanecem com a doença após a cirurgia.

“Em 35% dos pacientes a gente remove o trombo, mas a pressão na artéria pulmonar continua alta, significando que há algo a mais ali além do trombo”, resume William Salibe-Filho, da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP). Com apoio da FAPESP, ele, a biofísica Thaís Larissa Araújo, do Instituto de Química da USP, e outros colaboradores decidiram investigar as células endoteliais das artérias pulmonares em busca de respostas.

“Na parede dos vasos pulmonares, na parte interna, há uma monocamada de células endoteliais. O que já está relativamente estabelecido sobre a doença é que, nos portadores, há uma disfunção nessas células endoteliais dos vasos pulmonares, que faz com que ocorra uma sobrecarga de trabalho para o coração. E quem ‘paga o pato’ é o lado direito do coração, que tem de bombear mais sangue para conseguir vencer a resistência e a dificuldade da circulação pulmonar. Esses pacientes acabam evoluindo para insuficiência cardíaca, mas do lado direito do coração”, explica Salibe-Filho.

Em artigo publicado na revista PLOS ONE, os cientistas mostraram que células endoteliais disfuncionais apresentam baixa expressão da proteína HSP70, considerada uma chaperona molecular (proteína que auxilia outras proteínas a adquirirem a configuração estrutural adequada para o cumprimento de suas funções). Os pesquisadores sugerem que a HSP70 pode estar contribuindo para regular a disfunção das células endoteliais e, portanto, tem grande potencial para ser um biomarcador da doença.

“Já vínhamos estudando as chaperonas sob condições de shear stress, ou o que chamamos de ‘força de cisalhamento’. Trata-se de uma força dinâmica que acontece naturalmente com a passagem do sangue pelos vasos. Do ponto de vista de intensidade do fluxo, essa passagem pode ser de alta magnitude ou de baixa magnitude. Já havíamos observado, em outro trabalho, que a HSP70 está reduzida em regiões de baixa magnitude. Foi a primeira vez que se mostrou essa correlação: que há menos HSP70 nessas regiões de baixo fluxo e que isso está associado com a aterosclerose e a disfunção endotelial. Assim, já tínhamos uma evidência das correlações estabelecidas com a redução das chaperonas no sistema cardiovascular”, explica Araújo.

Ela afirma que, no caso da circulação nos vasos pulmonares, um shear stress baixo é o ideal. “Acontece que, com a doença e a presença de um trombo, há uma obstrução do fluxo em um local determinado. Ali, o fluxo será baixo, mas em outros locais ele aumentará, tornando-se de alta magnitude. E a célula endotelial começará a responder mal. Mas não se sabia muito bem quais eram as proteínas implicadas nesse processo. Pela primeira vez estamos mostrando, molecularmente, que há ali algumas proteínas relevantes para essa disfunção endotelial.”

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