Crianças com microcefalia causada por zika têm desenvolvimento neurológico heterogêneo, revela estudo

13 de outubro de 2021

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisa realizada em Salvador (BA) mostrou que crianças com microcefalia causada pelo vírus zika têm desenvolvimento neurológico heterogêneo ao chegar à faixa entre 2 e 3 anos de idade. Essa variedade de perfil pode ser detectada por meio de uma avaliação neurológica, permitindo, assim, uma abordagem personalizada do tratamento.

O estudo, publicado na revista PLOS ONE, acompanhou 42 bebês com idade entre 24 e 40 meses nascidos com a síndrome congênita do zika (CZS, na sigla em inglês), como é chamado o conjunto de sequelas provocadas pela infecção durante a gestação.

No geral, essas crianças apresentaram paralisia cerebral em grau elevado (nível 5, o mais alto do Sistema de Classificação da Função Motora Grossa; pessoas nessa condição precisam de cadeira de rodas para se locomover) e graves atrasos de cognição, linguagem, motores e neurológicos, entre eles espasticidade bilateral – um distúrbio caracterizado por tensão, rigidez e incapacidade de controlar os músculos. No entanto, por meio de dois tipos de avaliação, os pesquisadores também captaram uma heterogeneidade no desenvolvimento. Essa diferença pode ser constatada, por exemplo, na variação do grau de comprometimento da resposta da criança a estímulos externos.

Os bebês passaram por avaliações neurológicas e de neurodesenvolvimento por meio do Exame Neurológico Infantil Hammersmith (HINE), considerado curto e de fácil aplicação, e da Escala Bayley de Neurodesenvolvimento Infantil (Bayley-III). As melhores pontuações nas avaliações neurológicas (HINE) foram associadas a resultados mais positivos no neurodesenvolvimento (Bayley-III). No entanto, mesmo entre os casos mais graves, houve diferentes pontuações, evidenciando a heterogeneidade.

Além disso, o estudo descobriu que um tamanho maior da cabeça do bebê (perímetro cefálico) estava associado a um maior nível cognitivo e motor. Na amostragem, as crianças tinham perímetro cefálico menor que 31,9 cm e 31,5 cm, respectivamente, para meninos e meninas. Essa é a medida padrão estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificar casos suspeitos de microcefalia.

“A maior parte das pesquisas compara crianças expostas no útero ao vírus zika e as divide em grupos com e sem microcefalia. Mostram, no primeiro caso, pior prognóstico com desenvolvimento neurológico baixo e, no segundo, risco dos mesmos problemas em grau mais leve. Nosso estudo incluiu somente crianças com síndrome congênita do zika e avaliou os diferentes graus dos sintomas neurológicos para entender as diferenças individuais, e não apenas como um grupo que pode ter desenvolvimento e acompanhamento único”, explica o pesquisador Juan Pablo Aguilar Ticona, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), primeiro autor do artigo.

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