Divulgação Científica é Essencial para Fomento em Ciência, Tecnologia e Inovação

9 de outubro de 2019

Para o jornalista, pesquisador e professor Arquimedes Pessoni, “a pesquisa não termina com a sua publicação em revistas científicas”.

Em tempos de Fake News, o diálogo com a sociedade é fundamental para a reputação das Instituições de Ensino Superior e Pesquisa e dos seus profissionais.

(Arquimedes Pessoni. Créditos: Arquivo Pessoal)

Em setembro, aconteceu Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém do Pará. O grupo de pesquisa Comunicação, Divulgação Científica, Saúde e Meio Ambiente  atualmente é coordenado pela pesquisadora e professora da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) Katia Lerner  e pelo pesquisador e professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) Arquimedes Pessoni, que conversou por email com a Equipe de Jornalismo dos Laboratórios de Investigação Médica (LIMs) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) sobre Divulgação Científica e também sobre Fake News em Ciências da Saúde.

Jornalista, com Mestrado e Doutorado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e Pós–Doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Pessoni afirma que uma das características mais importantes da Divulgação Científica é a devolutiva dos pesquisadores para a sociedade, que financiou o seu projeto de pesquisa. “A pesquisa não termina com sua publicação em revistas científicas. Vai além. Quando o pesquisador divulga em outras plataformas, dá a devolutiva para a sociedade que – muitas vezes – financiou seu projeto. Torna melhor a imagem da universidade em tempos obscuros, quando acreditam que dinheiro em educação, ciência e tecnologia é apenas gasto e não investimento. Do ponto de vista pessoal, a imagem do pesquisador fica melhor perante a sociedade que vê valor no seu trabalho, além de ser fundamental na captação de outras verbas para novas pesquisas.”

Recentemente o organizador de Comunicação, Saúde e Pluralidade: Novos Olhares e Abordagens em Pauta  e Comunicação & Saúde: Parceria Interdisciplinar, participou do 2º Painel de Jornalismo, do Guardiã da Notícia em parceria com o Consórcio Intermunicipal Grande ABC, sobre Fake News e Jornalismo. De acordo com Pessoni, a parceria entre profissionais da Comunicação Social e pesquisadores é fundamental para combater as Fake News. “Acredito que até a nova postura do governo fará com que pesquisadores e universidades passem a valorizar mais o trabalho dos jornalistas que trafegam nesse nicho. Cada vez mais a universidade precisa mostrar sua relação com a comunidade e de que forma o conhecimento pode ser apropriado além dos muros e dos laboratórios. Se bem qualificados, profissionais de comunicação que trabalham com divulgação científica podem oferecer um serviço muito bom para a ciência e para os que a praticam de forma ética. Fake News se combate com informação de qualidade e quanto mais informação qualificada estiver circulando na rede, menos espaço para inverdades existirá.”

Confira a entrevista na íntegra com o pesquisador e professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) Arquimedes Pessoni.

Qual a importância da Divulgação Científica para os pesquisadores? De que maneira a Divulgação Científica impacta o trabalho deles?

Acredito que faz toda a diferença saber que seu trabalho pode impactar a sociedade além de seus pares. A pesquisa não termina com sua publicação em revistas científicas. Vai além. Quando o pesquisador divulga em outras plataformas, dá a devolutiva para a sociedade que – muitas vezes – financiou seu projeto. Torna melhor a imagem da universidade em tempos obscuros, quando acreditam que dinheiro em educação, ciência e tecnologia é apenas gasto e não investimento. Do ponto de vista pessoal, a imagem do pesquisador fica melhor perante a sociedade que vê valor no seu trabalho, além de ser fundamental na captação de outras verbas para novas pesquisas.

Muitas vezes os pesquisadores não estão familiarizados com as ferramentas ou não têm tempo para a Divulgação Científica. O que eles podem fazer para tornar a Divulgação Científica parte das suas rotinas?

Podem ser capacitar para esse fim ou contar com a assessoria de profissionais que podem fazer essa “tradução” de textos herméticos em algo mais palpável para o público leigo.

Por que as Fake News ganharam tanta proporção nos últimos tempos?  O que estaria por trás da distorção da informação especialmente nas matérias de saúde?

Porque assim como na política, não há vácuo na comunicação: se quem tem de fazer o trabalho correto não faz, alguém muitas vezes mal intencionado, o fará. Fake News é termo novo, mas existe há muito tempo com outras denominações. Aproveita a preguiça do leitor em checar a veracidade da informação, o despreparo dos profissionais de comunicação em fazer um bom trabalho de apuração e os espaços das diversas plataformas – principalmente as redes sociais digitais – para florescer. Muitas empresas farmacêuticas ou de práticas obscuras aproveitam esse espaço para enganar o leitor, presa fácil da falta de informação. Apresentam doenças e vendem a cura. Enfim, business.

Quais os desafios da relação entre jornalistas e pesquisadores? De que maneira ela pode ser melhorada para evitar as Fake News?

Acredito que até a nova postura do governo fará com que pesquisadores e universidades passem a valorizar mais o trabalho dos jornalistas que trafegam nesse nicho. Cada vez mais a universidade precisa mostrar sua relação com a comunidade e de que forma o conhecimento pode ser apropriado além dos muros e dos laboratórios. Se bem qualificados, profissionais de comunicação que trabalham com divulgação científica podem oferecer um serviço muito bom para a ciência e para os que a praticam de forma ética. Fake News se combate com informação de qualidade e quanto mais informação qualificada estiver circulando na rede, menos espaço para inverdades existirá.

Qual o cenário do Brasil em relação à divulgação científica atualmente? É um cenário de avanço, estagnação ou retrocesso, sobretudo em comparação com países desenvolvidos? Quais as perspectivas para o futuro?

Tenho uma aluna que está pesquisando justamente isso. O Brasil me refiro aos pesquisadores, parece que acordaram para a importância de divulgar o que pesquisam além dos pares. O próprio Currículo Lattes disponibilizou uma aba para registrar esse tipo de trabalho dos pesquisadores. Com o conceito da altimetria, as redes sociais são amplo espaço de divulgação científica. Muitas revistas – a qual sou editor, por exemplo (Comunicação & Inovação), já transformam os artigos em notícia e criam links para que seus autores compartilhem em suas redes. Trata-se de tendência mundial. É claro que ainda há as revistas que cobram acesso para textos completos, mas em breve serão evitadas, seja pelo custo de publicação, seja pelo custo do acesso aos artigos. Conhecimento é para fluir, senão não cumpre seu papel. Nessa seara há espaço para divulgadores científicos, desde que corretamente habilitados. Para eles fica o conselho do saudoso Prof. José Marques de Melo: “sejam sensacionais sem serem sensacionalistas”.

Marília Carrera| Comunicação LIMs


Desenvolvido e mantido pela Disciplina de Telemedicina do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP