Estudo Inédito da UNIFESP Aponta que Mais de 80 Milhões de Brasileiros Podem Estar no Grupo de Risco para a COVID-19

30 de abril de 2020

O pesquisador Leandro Rezende destaca a importância do isolamento horizontal: “Idade é apenas um dos fatores de risco. Quando consideramos outros fatores de risco, notamos que uma grande parte da população está no grupo de risco para a COVID-19”

Créditos: Scientific Animations | Wikimedia Commons

Um estudo inédito realizado por pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) constatou que mais de 80 milhões de adultos brasileiros podem estar no grupo de risco para a COVID-19. “Enquanto não tivermos mais dados sobre a evolução da epidemia de coronavírus no Brasil, especialmente sobre a parcela da população potencialmente imune, isto é, que desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2, as nossas estimativas sobre a parcela da população que está em maior risco em meio à epidemia podem ser relevantes para orientar estratégias de prevenção para COVID-19. Por exemplo, a necessidade de isolamento horizontal. Enquanto Santa Catarina e Minas Gerais ensaiam a flexibilização do isolamento social, o nosso estudo mostra que Sul e Sudeste são as regiões com maior proporção de adultos no grupo de risco”, afirmou o professor do Departamento de Medicina Preventiva da EPM-UNIFESP, Leandro Rezende, em entrevista à equipe de jornalismo dos Laboratórios da Investigação Médica (LIMs) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). “Idade é apenas um dos fatores de risco. Quando consideramos outros fatores de risco, notamos que uma grande parte da população está no grupo de risco para a COVID-19. Entre os mais jovens, a prevalência dos outros fatores de risco também é alta.”

Os autores do artigo científico “Adults at High-Risk of Severe Coronavirus Disease-2019 (COVID-19) in Brazil”, aceito para publicação na Revista de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), analisaram dados de 51.770 participantes da última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde, com o objetivo de estimar quantos adultos brasileiros estariam susceptíveis a complicações médicas, caso fossem infectados pelo novo coronavírus. O grupo de pesquisadores calculou o número e a proporção de adultos brasileiros (idade igual ou superior a 18 anos) que apresentavam um ou mais fatores relacionados ao pior prognóstico, hospitalizações e internações por COVID-19. Os pesquisadores da UNIFESP consideraram dois cenários de fatores de risco. O primeiro cenário incluiu idade igual ou superior a 65 anos, diagnóstico de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC), câncer nos últimos cinco anos, doença renal crônica (paciente em tratamento, por exemplo, hemodiálise) e doença respiratória crônica. Já o segundo cenário incluiu asma (moderada a grave), obesidade e tabagismo, além dos fatores de risco do primeiro cenário.

Em relação ao primeiro cenário, 34% (54 milhões de pessoas) dos adultos brasileiros estavam no grupo de risco para a COVID-19. Já em relação ao segundo cenário, a proporção é de 54% (86 milhões de pessoas). Dos mais de 50 mil participantes da Pesquisa Nacional de Saúde, 47% dos adultos brasileiros abaixo dos 65 anos de idade e 75% dos adultos brasileiros acima dos 65 anos de idade apresentaram pelo menos um fator de risco para os casos graves de COVID-19. Os fatores de risco foram duas vezes mais frequentes na parcela da população com ensino primário incompleto em comparação com a parcela da população com ensino superior completo. No primeiro cenário, 66% dos adultos brasileiros que não completaram o ensino primário e 27% dos adultos brasileiros que completaramo ensino superior pertencem ao grupo de risco para a COVID-19. “O nosso estudo mostra os efeitos da desigualdade social na epidemia de COVID-19. O acesso à educação, à infraestrutura urbana e à saúde é mais restrito entre as populações de menor renda”, disse o epidemiologista, que também é pós-doutorando do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. “Entre as pessoas em maior vulnerabilidade social, também é maior a parcela da população com doenças crônicas não transmissíveis. O acesso restrito aos serviços de saúde dificulta o diagnóstico tanto de COVID-19 quanto de doenças em geral.”

Créditos: EPM-UNIFESP

Os dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) indicam que 15,2% dos adultos brasileiros consultados com 0 a 8 anos de escolaridade tem diabetes, acima dos 5% com 9 a 11 anos de escolaridade e dos 3,7% com 12 ou mais anos de escolaridade. Os números do Ministério da Saúde mostram também que 42,5% dos adultos brasileiros consultados com 0 a 8 anos de escolaridade tem hipertensão arterial, acima dos 19,4% com 9 a 11 anos de escolaridade e dos 14,2% com 12 ou mais anos de escolaridade. Em relação à obesidade, 24,5% dos adultos brasileiros consultados que chegaram ao ensino fundamental tem índice de massa corpórea igual ou superior a 30, superando os 19,4% que chegaram ao ensino médio e os 15,8% que chegaram ao ensino superior. Em relação ao tabagismo, 3,3% dos adultos brasileiros consultados que chegaram ao ensino fundamental fumam 20 ou mais cigarros por dia, superando os 2,4% que chegaram ao ensino médio e os 1,7% que chegaram ao ensino superior.

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Sul e Sudeste na Linha de Frente

Entre os 26 Estados e o Distrito Federal, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro apresentaram as maiores proporções e Amazonas, Roraima e Amapá apresentaram as menores proporções de adultos brasileiros no grupo de risco para a COVID-19. Em relação ao segundo cenário, a proporção de adultos brasileiros no grupo de risco para a COVID-19 foi de 58,4% no Rio Grande do Sul, 58,2% em São Paulo e 55,8% no Rio de Janeiro e de 48,7% no Amazonas, 48,6% em Roraima e 45,9% no Amapá. “Um dos motivos para as maiores taxas no Sul e Sudeste é a maior expectativa de vida e, consequentemente, o maior número de idosos nas regiões. Quanto maior a idade, maior também as chances de fatores de risco entre a população”, explicou Rezende. “Entretanto, as diferenças regionais também podem ser explicadas pelo acesso restrito aos serviços de saúde e, consequentemente, a ausência de diagnósticos nos Estados do Norte e Nordeste.”

Créditos: EPM-UNIFESP

De acordo com o pesquisador da UNIFESP, o estudo está em linha com pesquisas realizadas recentemente tanto do ponto de vista dos procedimentos metodológicos quanto do ponto de vista dos resultados. Segundo o artigo científico How many Are at Increased Risk of Severe COVID-19 Disease? Rapid Global, Regional and National Estimates for 2020, disponível na versão pré-print na plataforma medRxiv, cerca de 22% da população mundial (1,7 milhão de pessoas) tem maior risco de contrair um caso grave de COVID-19, sendo que diabetes, doença cardiovascular, doença renal crônica e doença respiratória crônica foram as condições que mais prevaleceram entre os indivíduos a partir de 50 anos. “Com base nas diretrizes atuais e nos dados de prevalência do Global Burden of Disease (GBD), estimamos que um em cada cinco indivíduos em todo o mundo tem uma das condições para maior risco de caso grave de COVID-19. Entretanto, para muitos deles, a condição subjacente não será diagnosticada ou não será grave o suficiente para ser capturada pelos sistemas de saúde”, concluíram os pesquisadores internacionais. “Há uma necessidade urgente de análises robustas dos riscos associados a diferentes condições subjacentes, para que os países possam identificar os grupos de maior risco e desenvolver políticas de proteção para mitigar os efeitos da pandemia do COVID-19.”

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Por Marília Carrera / Comunicação LIMs

 


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