Grupo relata caso de paciente em que o SARS-CoV-2 continuou se replicando por 218 dias e sofreu mutações

23 de junho de 2021

Karina Toledo | Agência FAPESP – Um caso de infecção pelo novo coronavírus que durou ao menos 218 dias foi descrito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores em artigo divulgado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

Trata-se de um paciente do sexo masculino, de aproximadamente 40 anos, que antes de contrair a COVID-19 havia passado por um tratamento agressivo contra o câncer e estava com o sistema imune bastante debilitado. Ele se infectou no início de setembro de 2020 e somente em abril deste ano seus exames negativaram.

“Todas as amostras de secreção nasofaríngea coletadas entre o sexto e o 218o dia após o início dos sintomas tiveram resultado positivo para o SARS-CoV-2 no exame de RT-PCR. E o vírus não estava simplesmente presente no organismo desse paciente, estava também se replicando. Ou seja, durante todo esse período havia risco de transmissão para outras pessoas”, conta Maria Cássia Mendes-Correa, professora da Faculdade de Medicina (FM-USP) e primeira autora do artigo.

A confirmação de que o vírus permanecia infectante no organismo do paciente foi feita por meio de testes in vitro, no âmbito de um projeto apoiado pela FAPESP. Em um laboratório com alto nível de biossegurança, sediado no Instituto de Medicina Tropical (IMT-USP), as amostras de secreção nasofaríngea e de saliva coletadas semanalmente foram incubadas com linhagens celulares suscetíveis ao SARS-CoV-2. Nas horas seguintes, era possível observar um aumento da carga viral nas culturas, bem como a morte das células em decorrência da ação do patógeno. “Essa capacidade replicativa do vírus foi observada de forma contínua e persistente durante um período de 196 dias consecutivos”, relata a pesquisadora.

O grupo também coletou semanalmente, entre janeiro e abril de 2021, amostras de sangue, urina e de esfregaço anal. As análises indicaram a persistência de vírus nessas secreções em boa parte do período estudado.

Exames sorológicos revelaram ainda que em nenhum momento o paciente desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2 – nem aqueles detectados por testes comuns, como IgG e IgA, nem os do tipo neutralizante, que de fato conseguem barrar a entrada do patógeno nas células e só são identificados por meio de ensaios celulares sofisticados.

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