LIM 02 participa de maior ensaio clínico randomizado relacionado a intervenções carotídeas da literatura médica

13 de maio de 2022

De acordo com pesquisador do Laboratório de Anatomia e Cirurgia Vascular (LIM 02) Erasmo Simão da Silva, estudo envolvendo 3625 pacientes de 130 hospitais em 33 países mostrou que efeitos da Angioplastia de Carótida com Stent (ACS) e da Endarterectomia de Carótida (EC) entre pacientes assintomáticos com estenose carotídea aterosclerótica são equivalentes

Por Marília Carrera

O gráfico A mostra as taxas anuais de óbito e AVCI incapacitante ou fatal peri-procedimento, o gráfico B mostra as taxas anuais de óbito e AVCI incapacitante ou fatal não peri-procedimento, o gráfico C mostra as taxas anuais de óbito e qualquer tipo de AVCI peri-procedimento e o gráfico D mostram as taxas anuais de qualquer tipo de AVCI não peri-procedimento, tanto para Angioplastia de Carótida com Stent (ACS), em azul, quanto para Endarterectomia de Carótida (EC), em rosa. Os eventos peri-procedimento ocorrem nos primeiros 30 dias e os eventos não peri-procedimento ocorrem nos períodos seguintes ao procedimento. Carotid Angioplasty with Stenting (CAS) significa Angioplastia de Carótida com Stent (ACS) e Carotid Endarterectomy (CEA) significa Endarterectomia de Carótida (EC), em inglês.

Pesquisadores do Laboratório de Anatomia e Cirurgia Vascular (LIM 02) contribuíram com o Second Asymptomatic Carotid Surgery Trial (ACST-2), um ensaio clínico randomizado envolvendo 3625 pacientes de 130 hospitais em 33 países entre 15 de janeiro de 2008 e 31 de dezembro de 2020. De acordo com os autores do estudo “Second Asymptomatic Carotid Surgery Trial (ACST-2): a randomised comparison of Carotid Artery Stenting versus Carotid Endarterectomy”, publicado em The Lancet em 2021, atualmente o ACST-2 é o maior ensaio clínico randomizado relacionado a intervenções carotídeas da literatura médica.

O estudo, realizado em parceria com a Universidade de Oxford, consistiu em comparar os efeitos da Angioplastia de Carótida com Stent (ACS) e da Endarterectomia de Carótida (EC) entre pacientes assintomáticos com estenose carotídea aterosclerótica. A estenose carotídea aterosclerótica corresponde ao estreitamento ou ao entupimento das artérias carótidas (duas artérias localizadas no pescoço, responsáveis por transportar o sangue para o cérebro) por ateroma (acúmulo de cálcio, de lipídio, entre outras substâncias).

De acordo com o pesquisador do LIM 02 Erasmo Simão da Silva, a comunidade científica tem analisado as vantagens e as desvantagens relacionadas às intervenções carotídeas, a Angioplastia de Carótida com Stent (ACS) e a Endarterectomia de Carótida (EC), versus o tratamento clinico em pacientes assintomáticos. O ACST-2, especificamente, comparou a ACS e a EC em pacientes anatomicamente e clinicamente aptos para ambas as intervenções carotídeas e assintomáticos, para os quais o procedimento era necessário “Agora o ACST-2 mostrou que, para um determinado grupo de indivíduos, tanto a ACS quanto a EC são equivalentes. O estudo alimenta a comunidade científica de mais evidencias, com mais informações sobre os possíveis tratamentos para a estenose carotídea aterosclerótica”.

O objetivo das intervenções carotídeas é liberar o fluxo sanguíneo, nos casos de estenose carotídea aterosclerótica. A ACS é considerada menos invasiva que a EC. Enquanto a EC é feita por meio de uma incisão cervical, a ACS é feita por meio de um acesso remoto por punção em outro sítio arterial (geralmente, artéria femoral, nos membros inferiores) utilizando dispositivos, como balões, cateteres e stents, para a dilatação arterial onde está o material ateromatoso. Entretanto, além do óbito e do ACVI, outro risco das intervenções carotídeas, principalmente da EC, é o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).

Em linha com da Silva, a manipulação da artéria carótida pode provocar instabilidade hemodinâmica, choque cardiogênico e, consequentemente, IAM. “Na ACS, o risco de AVCI decorre do deslocamento de fragmentos de material ateromatoso para o cérebro durante o cruzamento da placa de ateroma pelos cateteres, balões e stents Na EC, o risco de IAM decorre da maior necessidade de administração de drogas para a anestesia geral durante o procedimento”.

ACST-2 EM NÚMEROS

 Dos 3625 pacientes participantes da pesquisa, 1811 foram alocados para ACS e 1814 foram alocados para EC de maneira aleatória. Os AVCI foram classificados como não incapacitante, ou seja, pacientes capazes de realizar atividades cotidiana sozinhos, incapacitante, ou seja, pacientes incapazes de realizar atividades cotidianas sozinhos e fatal. Nos primeiros 30 dias, 1% tiveram AVCI incapacitante ou fatal (33, sendo 15 ACS e 18 EC) e 2% tiveram AVCI não incapacitante (77, sendo 48 ACS e 29 EC). Nos 5 anos seguintes, 2% tiveram AVCI incapacitante ou fatal (89, sendo 44 ACS e 45 EC) e 2% tiveram AVCI não incapacitante (81, sendo 47 ACS e 34 EC).

Os autores explicam que a ênfase do estudo foi o AVCI, principalmente o AVCI incapacitante, porque os casos IAM ficaram abaixo do esperado. Nos primeiros 30 dias, apenas 4 pacientes tiveram IAM fatal (todos submetidos a EC) e 13 pacientes tiveram IAM não fatal (5 submetidos a ACS e 8 submetidos a EC) e apenas um paciente teve paralisia transitória do nervo craniano (submetido a EC). Nos 5 anos seguintes, não houve registros de IAM.

Segundo da Silva, os primeiros 30 dias são críticos, porque as intervenções carotídeas podem provocar óbito, AVCI e IAM no curto prazo. “Os chamados eventos peri-procedimento ocorrem nos primeiros 30 dias e são mais comuns enquanto os chamados eventos não peri-procedimento ocorrem nos períodos seguintes e são mais raros. Ao contrário dos eventos peri-procedimento, os eventos não peri-procedimento geralmente não estão relacionados aos riscos da manipulação da artéria carótida”.

Em linhas gerais, a comparação dos efeitos da ACS e da ER entre os pacientes assintomáticos com estenose carotídea aterosclerótica por subgrupos, como tipo de AVCI, sexo, redução do diâmetro contralateral da artéria carótida, redução do diâmetro ipsilateral da artéria carótida e ecolucência de placa ipsilateral, apontou que a ACS e a EC são equivalentes. Entretanto, a EC respondeu melhor entre pessoas tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino, abaixo de 70 anos de idade e com estenose carotídea aterosclerótica entre 70% e 89% enquanto a ACS respondeu melhor entre pessoas com estenose carotídea aterosclerótica entre 90 e 99%.

 


Desenvolvido e mantido pela Disciplina de Telemedicina do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP