Pesquisadores criam camundongos para estudar tumor raro em humanos

16 de julho de 2019

Maria Julia Petroni | Jornal da USP – Estudos desenvolvidos por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, abrem caminho para a criação de novas drogas para o tratamento de carcinoma do córtex da suprarrenal. O grupo desenvolveu um camundongo geneticamente modificado capaz de reproduzir o carcinoma com as mesmas mutações encontradas nos tumores em humanos.

O carcinoma de córtex da suprarrenal é considerado um tumor agressivo, mas raro no mundo. Entretanto, no Brasil, de 3,4 a 4,2 casos por milhão de crianças com até 15 anos são afetadas pela doença por ano, incidência quinze vezes maior que a observada em outros países, como Estados Unidos. Pesquisadores brasileiros já revelaram que essa alta incidência está associada à presença de uma mutação no gene TP53 encontrada em habitantes do Sul e do Sudeste do País.

As suprarrenais, onde o câncer se desenvolve, fazem parte do sistema endócrino; são duas glândulas localizadas acima dos rins e responsáveis pela fabricação de hormônios essenciais para o funcionamento do organismo. Quando a doença é diagnosticada em estágios iniciais, a cirurgia é o tratamento padrão. Entretanto, apesar da remoção total do tumor, o prognóstico é geralmente ruim devido à alta recorrência da doença com a presença de metástases. Pacientes diagnosticados em estágios avançados têm poucas opções de tratamento e a maioria evolui para óbito.

Entre as dificuldades para encontrar tratamento efetivo desse câncer está a ausência de modelos animais que representem o tumor observado nos humanos. Até então, os estudos eram realizados com dados obtidos de pacientes e de linhagens celulares desenvolvidas in vitro – experimento feito fora do organismo vivo – a partir de tumores dos pacientes. Agora, surgem novas possibilidades a partir do trabalho realizado pelo grupo da FMRP e de Harvard.

O cientista Kleiton Silva Borges, da FMRP, primeiro autor do estudo, explica que os camundongos apresentam uma similaridade biológica considerável com os humanos e desenvolvem doenças parecidas do ponto de vista biomédico. O modelo animal que criaram possui mutação no gene TP53 que impede o funcionamento correto da proteína p53. Segundo Borges, mutações como essa também estão presentes nos pacientes; “essas mutações fazem com que a proteína p53 não atue adequadamente nas células dos pacientes, por isso o câncer surge”.

O pesquisador lembra que no animal é necessário associar essa mutação a outra, a do gene chamado Beta-catenina, também encontrada nos pacientes com o tumor, para desenvolver o carcinoma, o que é feito através de técnicas de engenharia genética. “Esse camundongo desenvolve um tumor com características muito similares às observadas nos tumores humanos, como a presença de metástases e aumento da secreção de hormônios.”

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