Pesquisadores do LIM 07 contribuem com descobertas recentes sobre a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA)

10 de junho de 2022

Pesquisadores Laboratório de Gastroenterologia Clínica e Experimental ajudaram a desenvolver o Preparedness Index (Índice de Preparação) para a DHGNA, que relevou a ausência de políticas públicas para lidar com a doença a nível global, e a identificar uma possível relação entre uma mutação no gene PNPLA3 e DHGNA

Por Marília Carrera

 

A imagem mostra a pontuação do Preparedness Index (Índice de Preparação) para a DHGNA para os 102 países participantes da pesquisa. Quando maior a pontuação do Preparedness Index (Índice de Preparação) para a DHGNA, melhor o cenário do país para lidar com a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA).

 

Pesquisadores dos Laboratórios de Investigação Médica (LIM) identificaram uma possível relação entre uma mutação no gene PNPLA3 e a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) na população brasileira. “Este polimorfismo consegue predizer de 2 a 3 vezes o risco para a predisposição ao desenvolvimento de DHGNA assim como o risco para a predisposição ao desenvolvimento de fibrose e de câncer de fígado. Estas associações foram confirmadas em várias etnias e populações, incluindo a brasileira, conforme demonstrado pelo grupo de pesquisa coordenado por mim”, afirma a professora doutora Claudia Oliveira, que assinou o editorial “Should PNPLA3 polymorphism be performed in clinical practice in patients with NAFLD to predict the risk of disease progression?”, publicado pelo Hepatology recentemente.

De acordo com a pesquisadora responsável pelo Laboratório de Gastroenterologia Clínica e Experimental (LIM 07), o principal fator de risco da DHGNA é a síndrome metabólica, a qual inclui diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial e obesidade. Entretanto, a maioria dos pacientes começam a desenvolver os primeiros sintomas quando a DHGNA evolui para cirrose. Quando não tratada, em dez a quinze anos, a DHGNA pode evoluir para câncer hepático, cirrose ou fibrose, eventualmente com necessidade de realização de transplante de fígado. “A DHGNA a manifestação hepática da síndrome metabólica. O acometimento hepático pela DHGNA torna a diabetes e a doença cardiovascular mais graves. Existe, desta forma, uma íntima relação entre a gravidade da DHGNA, principalmente em casos de fibrose, e a piora da diabetes e o maior risco de doença cardiovascular”.

Segundo a professora associada do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e chefe do Serviço Hepatologia do Hospital das Clínicas (HCFMUSP), atualmente os casos de DHGNA estão aumentando devido aos hábitos da vida moderna, como o consumo de alimentos ultraprocessados com alto teor de açúcar, gordura e sal e o sedentarismo. “O tratamento da DHGNA consiste em mudanças de estilo de vida para a perda de cerca de 7% a 10% do peso corporal, incluindo controle da pressão arterial e dos níveis de açúcar e de gordura no sangue e exercício físico por cerca de quarenta minutos de três a cinco vezes por semana. Em alguns casos, medicações, como análogos de GLP-1, pioglitazona e vitamina E, podem ser necessárias”.

O editorial menciona dois estudos com a participação de pesquisadores brasileiros, “Validation of PNPLA3 polymorphisms as risk factors for NAFLD and liver fibrosis in an admixed population”, também coordenado por Oliveira, publicado pela Annals of Hepatology, e “PNPLA3 gene polymorphism in Brazilian patients with type 2 diabetes: a prognostic marker beyond liver disease?”, publicado pela Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases. As descobertas recentes sobre a mutação no gene PNPLA3 ressaltam a importância da medicina de precisão, ou seja, a adaptação do diagnóstico e do tratamento da doença de acordo com o perfil genético do paciente, no tratamento da DHGNA. Por meio da identificação da mutação no gene PNPLA3, a medicina de precisão prediz a chance de desenvolvimento de DHGNA, e, consequentemente, propicia a prevenção da doença com ainda mais eficácia.

 

POLÍTICAS PÚBLICAS DA DHGNA

Embora seja um problema de saúde pública global, a maioria dos países carece de políticas públicas relacionadas à DHGNA. O estudo “The global NAFLD policy review and preparedness index: are countries ready to address this silent public health challenge?”, publicado pelo Journal of Hepatology, mostrou que nenhum dos países participantes da pesquisa, incluindo o Brasil, está preparado para lidar com a DHGNA. “O estudo é de extrema importância, para demonstrar a falta de conhecimento assim como a ausência de políticas públicas, para a DHGNA, a qual está se tornando a principal causa de transplante de fígado nos países ocidentais. O LIM 07 está envolvido neste e em outros estudos internacionais, apontando diretrizes para melhorar o conhecimento assim como novos tratamentos em desenvolvimento para a doença, afirmou Oliveira. Tanto o Hepatology, no qual foi publicado o editorial, quanto Journal of Hepatology, no qual foi publicado o estudo recente, são dois dos principais periódicos sobre hepatologia do mundo.

Dos 102 países participantes da pesquisa, nenhum apresentou estratégia nacional voltada para a DHGNA e, no máximo, 2% das estratégias nacionais voltadas para outras condições relacionadas, como cirrose, diabetes mellitus (diabetes tipo 2), dislipidemia, hipertensão e obesidade, mencionavam a DHGNA. Em cinco das seis categorias, “políticas”, “diretrizes”, “consciência civil”, “epidemiologia e dados”, “detecção” e “gestão de saúde”, a maioria dos países foi considerada baixo nível e a minoria dos países foi considerada alto nível, com exceção da categoria “diretrizes”, na qual a minoria dos países foi considerada nível médio. O país com a maior pontuação no Preparedness Index (Índice de Preparação) foi Índia (42,7), seguido por Reino Unido (40), Suécia (34,1), Bulgária (32,9), Alemanha (32,1) e Bélgica (28,7).

“A pontuação geral do país fornece uma indicação do seu preparo para a DHGNA enquanto a classificação do país fornece informações sobre o seu desempenho em comparação com os outros países pesquisados. A Índia obteve a pontuação mais alta, embora tenha ficado bem abaixo do melhor cenário de referência, o que destaca a importância de os países priorizarem melhorias em sua pontuação geral em vez de em sua classificação. A classificação pode ser útil para ajudar a identificar países com melhor desempenho e, portanto, com insights e experiências úteis para compartilhar com os outros”, escreveram os pesquisadores.

“Mais importante que a pontuação em si, fornecemos informações sobre os domínios que cada país deve priorizar para melhorar o seu nível de preparação para prevenir e gerenciar a DHGNA. É impressionante que nenhum país tenha relatado uma estratégia ou um plano de ação nacional ou subnacional por escrito para a DHGNA. Acreditamos que seja uma causa e uma consequência da ausência da DHGNA na agenda global de saúde pública e da ausência de tratamentos farmacológicos para a doença. A falta de orientação estratégica sufocou a ação em níveis global, regional e local, o que está apenas começando a ser abordado. Igualmente, a falta de conscientização sobre a DHGNA e seu impacto na economia e na saúde resultou em uma sensação de inércia. O desenvolvimento de orientações estratégicas por associações de estudo do fígado e instituições internacionais como a OMS [Organização Mundial da Saúde] ajudaria a impulsionar a ação em nível nacional, como foi demonstrado para as hepatites virais”, complementaram eles.

 

METODOLOGIA

Os pesquisadores identificaram 168 autoridades para participar da pesquisa por meio da Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL, na sigla em inglês), das quais 73 responderam ao questionário com vinte perguntas de múltipla escolha. Além dos 73 países, os pesquisadores solicitaram que 29 autoridades que participaram de outra pesquisa semelhante, “A cross-sectional study of the public health response to non-alcoholic fatty liver disease in Europe”, publicada pela Journal of Hepatology, atualizassem as suas respectivas respostas. Os 102 países participantes da pesquisa contabilizam 6,44 bilhões de pessoas, o que corresponde a 86% da população mundial. A coleta de dados ocorreu entre janeiro e setembro de 2020.

Para o cálculo do Preparedness Index (Índice de Preparação) para a DHGNA, os pesquisadores agruparam as vinte perguntas de múltipla escolha nas seis categorias. A categoria “políticas”, com quatro perguntas, se refere à existência de políticas públicas para a DHGNA ou à inclusão da DHGNA em políticas públicas para outras condições relacionadas A categoria “diretrizes”, com quatro perguntas, se refere à existência de diretrizes clínicas para a DHGNA ou à inclusão da DHGNA em diretrizes clínicas para outras condições relacionadas. A categoria “consciência civil”, com duas perguntas, se refere à existência de campanhas e de organizações da sociedade civil para a conscientização sobre a DHGNA.  A categoria “epidemiologia e dados”, com três perguntas, se refere à existência de dados sobre a DHGNA e de esforços para a coleta de dados sobre a DHGNA. A categoria “detecção”, com três perguntas, se refere à existência de orientações para detectar DHGNA em pacientes em geral. Já a categoria sobre gestão de saúde, com quatro perguntas, se refere à existência de orientações para detectar comorbidades em pacientes com DHGNA. Os pesquisadores classificaram os países como nível baixo, nível médio ou alto nível para cada categoria.


Desenvolvido e mantido pela Disciplina de Telemedicina do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP